Discord tira do ar os apps que furavam o bloqueio de vídeo da ANPD. A live no Brasil continua suspensa.
A declaração saiu hoje, à GloboNews. Depois que a reportagem achou pelo menos dois serviços de terceiros dentro de funções nativas do app — e viu vídeo e compartilhamento de tela funcionando em chamada coletiva no Brasil — a empresa disse que investigou e removeu os aplicativos. Sem autorização dela, segundo a nota. Contra os termos de uso.
O Discord não voltou ao normal. Texto, voz e servidor seguem. Go Live, chamada de vídeo e tela compartilhada continuam cortados até a ANPD autorizar de novo.

Kimberly White / TechCrunch (CC BY 2.0) — Jason Citron no Disrupt SF 2018
Overrated
ler a nota e achar que o vídeo voltou no Brasil
Underrated
abrir o Discord e testar Go Live: a suspensão da ANPD continua
O que o Discord removeu hoje
A GloboNews não nomeou as ferramentas. Nem o passo a passo. A redação da matéria de sábado já tinha feito a mesma escolha — para não facilitar o uso. O recorte que importa: os serviços não eram do Discord, mas rodavam na seção nativa de atividades, em chamada coletiva, para usuário no Brasil, sem bloqueio geográfico aparente.
A empresa não disse quando os apps saíram do ar. Não descreveu a trava técnica contra o próximo atalho. A frase oficial, na íntegra do que o g1 publicou hoje:
“Após investigarmos o uso de aplicativos de terceiros para contornar a suspensão dos recursos de vídeo no Brasil, sem o conhecimento ou a aprovação do Discord, agimos imediatamente para remover esses aplicativos da plataforma, em conformidade com nossos termos.”
A mesma nota promete diálogo com a ANPD para restabelecer o vídeo. Promessa. Não é autorização.
O que a ANPD fez com a denúncia
A agência pediu esclarecimentos ao Discord depois da denúncia da GloboNews. O recado que acompanhou o pedido: descumprir medida preventiva pode gerar sanção nova — inclusive multa diária.
A Superintendência de Fiscalização (SFI-ANPD) já tinha recusado o efeito suspensivo que a empresa pediu no recurso. Motivo publicado na nota de hoje: devolver live e compartilhamento de vídeo sem salvaguarda para criança e adolescente arriscaria repetir as condutas investigadas antes do fim do processo. O processo corre desde 7 de agosto. O mérito do restante do recurso foi à SFI e, na quinta (17), ao Conselho Diretor — quem decide na via administrativa.
A suspensão, diz a área técnica, é temporária. A volta depende do Discord provar salvaguardas. As outras funções da plataforma não entram no corte.
De onde veio o corte
Em 12 de agosto, a ANPD expediu medida preventiva: suspender no Brasil, em três dias úteis, a funcionalidade Go Live e recursos equivalentes de transmissão e compartilhamento de vídeo. Também mandou implementar mecanismo tecnicamente eficaz contra burla. O Discord informou o cumprimento em 17 de agosto.
A tese da SFI, no comunicado oficial: evidências de que a empresa não adotou medidas razoáveis contra risco grave a menores de 18 anos no serviço — sobretudo indução, incitação, instigação ou auxílio à violência, à automutilação e ao suicídio, no recorte do ECA Digital. A plataforma, segundo a agência, não está bloqueada. O alvo é a live em servidor fechado.
Dois detalhes técnicos que a ANPD pôs no papel e que explicam a teimosia do corte:
- Pela arquitetura do Discord, a empresa não vê o conteúdo do vídeo enquanto a live acontece. Sem análise audiovisual em tempo real no servidor. Dependência de sistema automático falho e de denúncia de quem está na sala.
- Em março, depois do ECA Digital e às vésperas da vigência, a plataforma mudou o Go Live de um jeito que a agência classificou como ainda menos protetivo.
A Agência Brasil registrou a mesma ordem no dia 12: três dias para cumprir; recurso em dez dias úteis; multa de até R$ 50 milhões por infração no art. 35 do ECA Digital, se a fiscalização concluir irregularidade. Isso é teto legal. Não é multa aplicada hoje.
O g1 liga o caso público à morte de uma adolescente de 13 anos em Mato Grosso do Sul, no fim de julho, e à Operação Lívia, da Polícia Civil e do Ministério da Justiça. A ANPD, no comunicado de agosto, não reduz a fiscalização a um único episódio: fala em uso reiterado das lives em violações graves contra crianças e adolescentes.
O que ainda funciona no app
Abre o Discord no Brasil. Servidor, texto e voz continuam. O que a cautelar tirou — e o que a brecha de sábado tentava devolver — é vídeo em tempo real: Go Live, chamada de vídeo, tela. A ANPD já tinha escrito, em agosto, que a empresa precisava de trava contra burla. Hoje a empresa diz que tirou os dois apps. Não mostrou a trava.
SaferNet Brasil, no recorte que a ANPD publicou em agosto: denúncias envolvendo o Discord subiram 54% nos sete primeiros meses de 2026 contra o mesmo período de 2025 — 406 contra 264. Número de denúncia. Não é prova de que a remoção de hoje fecha o próximo atalho.
O teste desta segunda é curto. Se Go Live ainda recusa, a nota do Discord não mudou o produto. Se alguém achar o terceiro app na mesma prateleira de atividades, a multa diária deixa de ser hipotética.
Fontes
- g1 / GloboNews — Discord remove aplicativos usados para contornar suspensão de vídeos (21/09/2026)
- g1 / GloboNews — Discord mantém brecha para transmissões ao vivo (19/09/2026)
- ANPD — medida preventiva que suspende transmissões ao vivo no Brasil (12/08/2026)
- g1 — Discord diz que suspendeu lives após decisão da ANPD (17/08/2026)
- Agência Brasil — ANPD determina suspensão de transmissões ao vivo (12/08/2026)
- Olhar Digital — Discord remove brecha que permitia transmissões ao vivo (21/09/2026)
The Zero.